Brasileiro é o verdadeiro pioneiro da radiodifusão Mundial

     Por Ronaldo Reis (Rony), indicativo PS7AB

     O dia 30 de junho de 1999 marca os 71 anos da morte do cientista e inventor brasileiro Roberto Landell de Moura, o pioneiro mundial na transmissão da voz utilizando equipamentos sem fio (rádio), ou seja, ele é o precursor da radiodifusão.

 

     Landell de Moura desenvolveu seus estudos e experiências a partir de 1893, e, comprovadamente, efetuou pelo menos uma demonstração pública em S. Paulo capital, no dia 03 de junho de 1900, além de possuir patentes registradas no Brasil (1901) e USA (1904).

     A sua vitoriosa experiência foi assim noticiada pelo Jornal do Comércio de 10 de junho de 1900: “No domingo próximo passado, no alto de Santana, cidade de São Paulo, o Padre Landell de Moura fez uma experiência particular com vários aparelhos de sua invenção,
no intuito de demonstrar algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade através do espaço (...), as quais foram coroadas de brilhante êxito. (...) Assistiram a esta prova, entre outras pessoas, o Sr P.C.P. Lupton, representante do Govêrno britânico, e sua família”.

     E Marconi? O grande cientista italiano, em 1895, conforme se verifica em suas patentes e na biografia oficial, foi o primeiro a conseguir transmitir somente sinais em telegrafia (código morse ou CW), utilizando o rádio, não tendo na época se interessado (ou conseguido ?) experimentos com a voz humana.

     Uma certa confusão entre os trabalhos desenvolvidos no final do século passado pelos 02 cientistas, certamente tem levado as autoridades e a comunidade científica brasileira a não reconhecer, e, consequentemente, divulgar a obra do nosso ilustre cientista.

     Landell de Moura utilizou circuitos inéditos para a época, (e patenteou parte deles no Brasil e USA) para a propagação do som e da voz humana pelas ondas eletromagnéticas e luminosas (sistema fotônico - eletrônico), que, em última análise, é o início da radiodifusão, que só foi consagrada principalmente após a invenção, em 1906, da válvula tríodo por De Forest, que substituiu a bobina de Ruhmkorff utilizada por Landell de Moura em seus aparelhos patenteados em 1901/4.

     O princípio de funcionamento da fibra ótica também baseia-se nas invenções de Landell de Moura.

     Numa época em que para a maioria da população era incomum se conciliar ciência e religião, é perfeitamente viável que Landell de Moura, mesmo sem restrições pela Igreja aos seus experimentos, só anos depois de seus primeiros êxitos tenha se animado a demonstrar em público suas invenções.

     Já em 1903, Arthur Dias, em seu livro “Brazil Actual” faz referência a Landell de Moura, descrevendo, entre outras coisas, o seguinte: “...logo que chegou a S. Paulo, em 1893, começou a fazer experiências preliminares, no intuito de conseguir o seu intento - transmitir a voz humana a uma distância de 8, 10 ou 12 kilometros, sem necessidade de fios metálicos. Após alguns meses de penosos trabalhos, obteve excellentes resultados com um dos aparelhos construidos...”.

     Observem que o livro foi escrito apenas 10 anos após o início das experiências de Landell de Moura, estando o mesmo na época nos USA registrando a patente de seus inventos..

     Marconi desenvolveu suas experiências em Bolognha, Itália, divulgando seu feito em setembro de 1895, mas só patenteou seu invento no ano seguinte, na Inglaterra, não se sabendo ao certo a razão de não ter concedido (ou conseguido) o registro de tal glória ao seu País.

     Além de estar próximo da comunidade científica internacional, Marconi pertencia a família abastada, e dispôs de todos os recursos financeiros necessários para desenvolver seus experimentos, tendo a eles se dedicado exclusivamente. Também procurou de imediato a utilização comercial de seu trabalho, fundando uma empresa logo após registrar sua patente na Inglaterra.

     Com Landell de Moura ocorreu o inverso, pois além de não dispor de recursos financeiros, dividia o tempo entre os afazeres do sacerdócio e suas experiências, efetuadas em improvisados laboratórios que ele montava nos fundos das paróquias em que trabalhava. Dilentatista, desenvolveu seus trabalhos com a colaboração financeira de amigos, e somente com uma visão científica.

     A Igreja Católica, em vida, promoveu Landell de Moura merecidamente até atingir o importante grau de Monsenhor, bem como concedeu, inclusive, permissão especial de Roma para viajar aos USA, o que era difícil na época, lá permanecendo 4 anos para patentear seus inventos. Obviamente a Igreja aceitava e apoiava o seu trabalho como cientista.

     Independente da polêmica que essas afirmações possam causar, é interessante observar que os dois maiores inventores internacionais brasileiros, Santos Dumont e Landell de Moura, não se interessaram em explorar comercialmente seus inventos.

     Santos Dumont, talvez por ter vivido na França, já está com seu lugar registrado na história desde aquela época. Landell de Moura, um inventor e cientista que desenvolveu suas experiências em nosso País, com poucos recursos técnicos e financeiros, estranhamente, até hoje, é um ilustre desconhecido da maioria absoluta do povo, governo e comunidade científica, inclusive no Brasil.

     As anotações deixadas por Landell de Moura, foram alvo de minucioso estudo realizado pelo Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da TELEBRÁS (que diga-se de passagem leva o nome do Padre Landell de Moura), tendo se concluído pela validade de suas teorias.

     Em 07 de setembro de 1984, em Porto Alegre, após um magnífico trabalho de reconstrução coordenados pelo Prof Otto Albuquerque, pela CIENTEC (Fundação de Ciência e Tecnologia do RS) e a FEPLAN (Fundação Educacional Padre Landell de Moura), foi feita uma demonstração pública utilizando-se um rádio montado com os mesmos materias usados à época por Landell de Moura, tendo sido transmitidas algumas palavras pronunciadas pelo então Governador Jair Soares.

     O rádio encontra-se na FEPLAN em Porto Alegre. Os originais das anotações estão no Museu Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.

     Estudiosos e cientistas brasileiros, como por exemplo o Prof. Otto Albuquerque, Ruy de Paula Couto, Eng. Iwan Thomas, o falecido jornalista e radioamador Gilberto Afonso Penna, já tiveram oportunidade de explicar, técnicamente e de forma inquestionável, em artigos publicados em revistas e jornais, além de livros, o funcionamento dos equipamentos inventados por Landell de Moura.

     Os estudos e experiências de Landell de Moura estão registradas em seus livros de anotações, demonstrando que desde 1893 ele vinha desenvolvendo as teses e experimentos necessários para os seus aparelhos.

     Nascido em Porto Alegre em janeiro de 1861, Landell de Moura teve formação eclesiástica em Roma. Ordenado sacerdote em 1886, voltou para o Brasil e desempenhou atividades religiosas até sua morte, também em Porto Alegre, já no importante cargo de Monsenhor.

     Em Roma iniciou seus estudos de física e eletricidade, nos quais aperfeiçoou-se como auto-didata no Brasil. É bom lembrar que aqui, Landell de Moura estava isolado dos grandes centros de pesquisas da época, especialmente França, Inglaterra e USA, só tomando conhecimento dos avanços tecnológicos que ali ocorriam meses depois, pelas poucas publicações que chegavam ao nosso país.

     A 1a experiência pública documentada realizada por Landell de Moura, foi em S. Paulo, e noticiada pelo Jornal do Comércio de 10 junho de 1900 (texto já citado no início do presente artigo).

     O êxito das experiências do padre Landell não tiveram o merecido destaque pela imprensa e pelas autoridades brasileiras da época, o que causou uma grande decepção ao ilustre cientista, conforme se verifica em reportagem publicada no jornal “La Voz de Espanã” (editado em S. Paulo), no dia 16 de dezembro de 1900 em que diz: “...quantas e que amargas decepções experimentou Padre Landell ao ver que o governo e a imprensa de seu país, em lugar de o alentarem com aplauso, incentivando-o a prosseguir na carreira triunfal, fizeram pouco ou nenhum caso de seus notáveis inventos....”.

     Tais fatos não desanimaram Landell de Moura, que em 09 de março de 1901 obteve para seus inventos a patente brasileira nº 3.279.

     Meses depois seguiu para os USA, e em 04 de outubro de 1901 deu entrada de requerimentos no The Patent Office of Washington pedindo privilégio para suas invenções, tendo obtido, após muito sacrifício pessoal, em 11 de outubro de 1904 a patente 771.917, para um transmissor de ondas; a 22 de novembro de 1904, a patente 775.337 para um telefone sem fio e a 775.846 para um telégrafo sem fio.

     No período em que morou nos USA, Landell de Moura passou sérias dificuldades financeiras para conseguir montar seus equipamentos, e provar a viabilidade dos mesmos (conforme exigência do The Patent Office).

     Seu trabalho foi notícia em 12.10.1902, no Jornal “New York Herald”, em reportagem sobre experiências desenvolvidas na época, inclusive por cientistas na Alemanha e Inglaterra, na transmissão de sons sem uso de aparelhos com fio.

     Em 1903, a revista “Brazil Actual” publica uma biografia de Landell de Moura, informando (...)”O telefone sem fios é reputado a mais importante das descobertas do Padre Landell, (...)e as diversas experiências por ele realizadas na presença do cônsul inglês de S. Paulo, Sr. Lupton, e de outras pessoas de elevada posição social, foram tão brilhantes que o Dr Rodrigues Botet, ao dar notícias desses ensaios, disse não estar longe o momento da sagração do Padre Landell como autor de descobertas maravilhosas (...)”.

     É importante ressaltar que a reportagem acima foi escrita na época em que ocorreram os fatos, ou seja, por pessoas que conviveram com Landell de Moura, e em condições de comprovar os seus feitos, o que reforça a veracidade das notícias que publicaram.

     Mas não paramos por aqui...

     O astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, em 27.07.1982, publicou artigo no Jornal do Brasil, e também se refere ao esquecimento a que foram relegadas as experiências pioneiras de Landell de Moura.

     O Prof. Otto Albuquerque em seu livro “No Ar a Luz que Fala”, faz minucioso estudo científico dos aparelhos inventados por Landell de Moura, não deixando margens à dúvidas do seu pioneirismo e funcionalidade.

     O jornalista e estudioso B. Hamilton Almeida já publicou 02 livros baseados em extensa pesquisa nos documentos existentes nas cidades em que Landell de Moura viveu, também demonstrando, baseado em fatos devidamente comprovados, o pioneirismo de Landell de Moura.

     Em diversos outros livros que contam a história da radiodifusão no Brasil, são feitas referências a Landell de Moura.

     No decorrer dos anos, dezenas de artigos foram publicados ressaltando os feitos de Landell de Moura, em jornais no Brasil, bem como em jornais editados em Portugal, USA, Alemanha e Áustria.

     Diante de tão vasta comprovação técnica existente sobre o pioneirismo de Landell de Moura, cabe ao Governo Federal, a ANATEL, e a comunidade científica, reconhecerem oficialmente a obra desenvolvida por Landell de Moura.

     Os gaúchos, tão zelosos em resguardar suas tradições culturais, feitos e personagens históricos, tem quase que por obrigação, lutar pelo reconhecimento de tão ilustre filho.

     Num país ainda tão carente em apoiar e desenvolver sua produção técnica e científica, deixar de prestigiar a obra de Landell de Moura, é desperdiçar a oportunidade de reconhecer para a posteridade os feitos e a glória de um dos grandes gênios brasileiros.
 

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